O Y da questão


  • Emerson Wolaniuk

    Mercedes Benz


    18:20 em Sem categoria por Emerson Wolaniuk


    Era uma cabana dessas que a gente inventa para contar uma história bonita. Parecida com aquela em que Missy desapareceu uma vez. Menos sombria, bem menos. Rodeada por uma floresta verde de verão, uma varanda cheia de folhas pelo chão. As janelas tinham um bom tanto de pó, a porta era meio caída, já estava velha. Mas era uma cabana linda. Quando a gente entrava pela porta, nós dois, dávamos de cara para a lareira que nos aquecia nas noites de inverno e, logo ao lado, a escada que subia para o quarto. Muita madeira, pouco conforto, alguns retratos ainda na estante. Pela manhã, eu gostava de abrir as janelas e, ainda de roupão, fazer um café preguiçoso para tomar na varanda.

    A estrada de terra, sinuosa, era percorrida entre um buraco e outro enquanto a música repetia um refrão, um daqueles que a gente pega pra si, como um mantra, e canta mentalmente, sem proferir uma nota, com medo d’aquele nó da garganta vir pra fora e afogar a gente. Pinheirinhos passavam rápido pela minha janela enquanto eu sacolejava dentro do antigo Mercedes Benz, com pressa, como sempre, sem desviar os buracos, sem dó, atropelando o meu atraso. Parei o carro em frente à cabana e, antes de descer, apoiei os braços sobre o volante, curvei as costas, e olhei através do pára-brisas: tudo continuava lá. A mesma atmosfera rodeava o jardim sem flores, o mistério do bosque ao fundo e os reflexos do Sol, que se punha no lago, alaranjados. Mão na maçaneta, chave na mão, pé no chão, porta aberta, porta fechada, a cabana. Consegui; levantei a cabeça e dei dois passos em direção à velha casa. Um, dois, três degraus: a varanda. E então um, dois passos: a janela, a janela pela qual olho agora e vejo aquele sofá, o cabide onde eu pendurava seu casaco. Passando a mão, tirando um pouco do pó, fica melhor de ver pelo vidro… Focalizo a lareira. Você sabe que eu sempre adorei a lareira. Quando eu fazia fogo, a casa se tingia de vermelho e amarelo, não podia ver todo o rosto, apenas parte dele, e o reflexo do fogo nos seus olhos… Você nem sabe quantas fotos mentais eu tirei desse brilho nos seus olhos. Estou revendo cada uma delas, mentalmente, agora, enquanto a lareira está apagada e a nossa casa é apenas uma casa abandonada. Do alto da varanda, olho o carro parado lá na frente…

    “Um dia vou comprar um Mercedes”, eu falei pra você, e estávamos tomando café na varanda – e vou estacioná-lo aqui na frente. “E eu vou estar no banco do lado, colocando aquele CD pra gente ouvir, enquanto percorremos a estradinha até aqui.” Você respondeu.

    [E ele caminhou até o Mercedes cinza, deu a partida. Antes, uma última olhada na cabana. Fez um giro de 360 graus e tomou a estradinha, deixando a poeira levantar-se atrás. Foi sumindo no caminho estreito, entre as árvores. No vidro traseiro do carro, colada com fita adesiva, uma placa: "Vende-se."]






    Deixe uma resposta