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É como se estivesse levitando, nu, numa enorme câmara negra. Parece que o vazio pode ser materializado em uma situação ou objeto, porque é o sentimento do “nada”; há sentimentos e onde eles estão há certas coisas também. Essas coisas estão lá, talvez, para nos permitirem explorar e expressar essa terrível experiência. E eu quase posso tocar o vazio. Ele começa no estômago, aí ascende para a garganta, aí sobe ao cérebro. Através do nervo óptico ele escorrega para os olhos. Então, parece que você engole uma enorme bola de metal, pesada e fria. Depois de dez segundos, você está girando ao redor do seu próprio corpo enquanto tudo à sua volta começa a ficar cada vez mais escuro.
Seus músculos, em alguns segundos, já estão paralisados, mas é possível sentir cada gota da sua consciência, gotejando dentro do espaço vazio do seu crânio, exatamente onde você se encontra agora. É como se fosse uma antropofagia de si, e ao contrário de ir para o estômago, seu ego está agora flutuando onde seu cérebro costumava estar. E, ironicamente, seu ego tem a forma do seu corpo. Inexplicavelmente, os olhos estão ao contrário olhando para todo esse processo interno.
Lentamente flutuando e girando, esse corpo começa a ficar menor e menor e você não consegue ao menos dizer se é por causa do processo natural do sentimento de vazio ou se está ficando cada vez mais longe de si, perdido nesse tipo de atividade compulsória. E você não é mais capaz de pensar, pois seu cérebro derreteu com o calor do inferno, onde parece que lhe jogaram. Vácuo, nada e vazio: eis o prelúdio do que vem depois da morte se você não foi um “bom garoto”, como eles definem a você na igreja. E, às vezes, um pouco do inferno é originado em vida (ou o que você chama de vida) por nós mesmos. Até os eventos externos que acontecem conosco são o efeito resultante de coisas que trazemos de dentro.
Piora. Como isso é um prelúdio, como evolução desse processo de corrosão há mais elementos, talvez os mais maldosos: os outros. De repente aquele corpo imóvel, flutuante e giratório, que é o seu ego, abre ambos os olhos e aí não é mais capaz de fechá-los.
Aquelas gotas de consciência, que estavam gotejando, param e você não é mais capaz de ouvir o som irritante delas. Isso pode lhe trazer alívio por um segundo, até a hora em que a vista de algo estranho ao ambiente atual aparece em meio ao espaço escuro ao redor: outra pessoa. E outra. Outra. Milhões delas, olhando fixamente para seu ego, desnudo. Aí então elas riem, histericamente rindo sobre os defeitos que possui e apontam para você. Elas apenas param quando, em uma tela, seus pecados são computados rapidamente, com detalhes, para todo mundo ver. Neste ponto você está completamente nu: sem roupas, sem mentiras, sem segredos, sem virtude. A essa hora, você sente o espaço vazio onde todas as qualidades que tinha, todos os bons sentimentos, amor, cuidado, fé, costumavam ocupar. Então, como você perdeu todas as boas coisas que tinha, torna-se mau. As pessoas não amam mais você. Elas lhe odeiam. Elas querem matar o seu ego, vão destruí-lo.
Há outras fases. É quando seus pecados, erros e defeitos são pregados em você, um a um. Você não é mais capaz de lutar, porque a força é uma virtude que você não tem mais. Apenas é possível sentir, e esses são os últimos sentimentos que irá provar antes de se tornar nada. Finalmente, quando sentir que tornou-se em “nada”, o ar à volta do seu ego se transforma em vácuo e ele explode dentro do seu crânio, eviscerando-se. Aí então você acorda, leva as mãos até os ouvidos, cai de joelhos e chora. Essa é a experiência do vazio. E você ficará olhando para a parede por mais alguns segundos após esse processo.