Todo mundo tem uma tia meio descompensada. A tia Marjorie completa todos os requisitos necessários para ser classificada como maluca, anormal, ilegal, macumbeira, muambeira e outros adjetivos relacionados à esquisitisse própria das tias que bebem conhaque às dez da manhã.
- Levei sorte, das minhas irmãs uma se chama Gérbera e outra Margarida. Deus me livre ter nome de flor, tenho alergia, olhe só, espirro só de pensar em flor. Por isso, não visito minhas irmãs. Elas me dão alergia, espirro feito uma condenada e, você sabe, tenho enfisema, começar a espirrar atrapalha muito a minha respiração. Cof, cof. Alcança um cigarro dali, filho, fazfavor? Obrigada.
Tia Marjorie é a mais velha de três irmãs, nascidas nos anos 40. Minha mãe, Margarida, cursou matemática e deu aulas até pouco tempo, já está aposentada. A tia Gérbera casou-se com um embaixador que morreu muito cedo, vive de pensão até hoje, faz uma plástica por semana e vai ao salão três vezes por dia, mais ou menos.
- Na vida a gente não precisa de muita coisa… Olhe só pra mim, quando completei 16 anos me casei com o Presidente (e apontou para a garrafa de conhaque, sobre a mesa). Não tive filhos, mas tive muitos gatos, que me distraíam no fim do dia. Dentro da minha casa, de ser humano basta eu. Em 67 anos, aprendi muito sobre música, sobre literatura, culinária, bordado, macumba, carteado, mas olhe, gente é uma coisa difícil. O isqueiro está aí na mesinha, meu filho?
Eu venho visitar a tia Marjorie pelo menos uma vez por semana. Ela diz que tem enfisema, mas na verdade ela tem câncer. Todo mundo na família sabe disso, mas ninguém tem paciência com as grosserias dela, por isso ninguém vem visitá-la. Além do câncer no pulmão ela está no começo da doença de Alzheimer, o médico disse. Está tomando remédios para isso, mas deveria parar de beber o que, para ela, a levaria ao suicídio.
- Eu sou uma mulher fiel. Jamais traí o Presidente com qualquer outro. Se tem uma coisa que eu levo em consideração nessa vida é a minha honra. Minha honra está mantida até minha última mordida. Eu mordo, mordo sim. E arrancaria de pedaço de qualquer homem que chegasse perto de tirar a minha honra. Sou feminista, e sou desde que nasci. Queimei um sutiã na sala de parto, enquanto me cortavam o cordão umbilical.
Nunca se casou, jamais eu soube que teve algum namorado. Minha mãe diz que nenhum homem suportaria viver do lado da tia Marjorie. Na verdade, eu acho que ela é que não suportaria viver ao lado de pessoa alguma. Há pessoas que não foram feitas para viver para fora do portão, para se misturar à espécie. E o pior dia pra tia Marjorie era o dia de ir ao mercado. Então, Juraci, a empregada, fazia esse serviço para ela.
- Não confio na empregada. Da última vez, conferi na nota e me faltaram cinco reais de troco. Pensa o quê? Mandei embora no mesmo dia. Mandei que juntasse suas coisas, pegasse o que era dela, lavasse a louça do almoço e que desse o fora daqui. Aí ela arranjou uma desculpa falando que gastou cinco reais na passagem de ônibus. Eu não mandei que fosse de ônibus! Era para ter ido a pé. Oras! Rua!
A Juraci foi a nossa última tentativa de arranjar uma empregada para cuidar da tia; depois de sete tentativas frustradas decidimos que não dava mais. Queriam mandá-la para um asilo, mas eu me prontifiquei de vir até aqui e ajudá-la nas tarefas da casa uma vez por semana. Não havia muito mais o que fazer além de lavar alguns pratos e passar uma vassoura na casa. As roupas dela eu levava até a lavanderia e eles entregavam em casa.
- E sabe, meu filho, eu andei reparando. Estão me faltando quinze blusas! Da última vez que você levou para a lavanderia me devolveram apenas três. E eram dezoito! Eu contei uma a uma, dezoito. E eu não quero mais que mande as minhas roupas íntimas pra essa lavanderia, não. Aquele entregador tenho certeza que é macumbeiro, vai ainda me fazer despacho com as minhas calcinhas, me amarrar no amor. Deus me livre!
Desde o começo do ano, a doença da tia Marjorie foi piorando. Desconfia de tudo e de todos, inventa histórias mirabolantes e sua memória está cada vez mais fraca.
- E você, aí, quem é?
- Eu sou seu sobrinho, tia, o César.
- Uhm, sei… Então me alcance um daqueles palitinhos… um… como diz? Um… Aquele ali ó… Um…
- Um cigarro?
- Isso.
Alcancei o cigarro a ela, acendi. O silêncio pairou no ar por alguns minutos, até que anunciei que estava na hora de eu ir para casa. Ela me olhou com uma cara séria e calma, e disse:
- Olhe, meu filho, poucas coisas me agradam tanto quanto um tchau. A porta é logo à esquerda, depois do corredor. Por favor, não roube nada no meio do caminho. Antes de ir, encha o meu copo aqui que eu quero ter uma conversa séria com o Presidente. Vamos tratar de política interna. E você, não volte do exílio antes de uma semana. Dá um tempo!