O Y da questão


  • Redação Ctea

    A Vida Definida


    12:58 em Sem categoria por Redação Ctea


    Era uma vez duas células. E elas eram muito distintas uma da outra. Uma tinha uma cauda enorme, comprida, que balançava pra lá e pra cá. A outra era redonda feito uma bola, toda peluda e preguiçosa, mal saía do lugar. Quando se encontraram, pararam por um instante, perguntaram-se se um dia dariam certo juntas, se seriam capazes de se unir perante todas aquelas diferenças. Nunca tinham se visto antes, mas sabiam de alguma forma que foram feitas uma para a outra.

    - Esse seu rabo enorme me incomoda, não sei se serei capaz de suportar você balançando ele perto de mim.

    - Eu não pedi para nascer com rabo – disse – mas sem ele eu não teria sido capaz de chegar até aqui. Se eu não tivesse um rabo, não teria impulso para transpor tantos obstáculos e chegar até você.

    - Mas a gente veio de lugares tão diferentes, você foi criado de uma maneira muito distinta da minha…

    - Se eu fosse criado aqui ao seu lado, do mesmo jeito que você, eu não poderia trazer coisas diferentes, cromossomos distintos, para lhe acrescentar.

    - Ah, mas quem me garante que você tem os cromossomos certos?

    - Eu garanto a você! Pois se cheguei até aqui, é porque eu sou a célula certa. E quero levar uma vida diplóide com você.

    Aí então, duas células se unem sem saber que o pouco que tinham, separadas, tornaria-se algo muito maior quando juntas. Os cromossomos, que ambas traziam, multiplicaram-se em milhões deles. Com o tempo, percebem que todas aquelas diferenças que exibiam uma da outra nada mais eram do que as próprias ferramentas que as uniram e, mais do que isso, foram fundamentais para que pudessem se tornar uma só. De uma maneira mais ou menos poética, nossa vida começa com uma declaração de amor entre duas células, pela junção de duas coisas completamente distintas. É fundamental atentar para o fato que, depois que estão juntas, elas se dividem. Abrem mão da própria arquitetura para integrarem-se uma à outra. Esse momento efêmero, quando antes eram duas e tornam-se uma só, por fim acaba em que se dão duas células novamente. Neste ponto, depois que renovaram-se juntas, dividiram o que tinham, podem, então, multiplicar-se. Não antes de se somarem ou se dividirem, é importante ressaltar.

    Esse resultado matemático e lógico pára mais ou menos por aí. Quando todo o resto passa a ficar cada vez mais complexo e curioso. Talvez por isso seja a parte mais bonita. Células se tornam um embrião, depois um feto, um bebê, uma criança, um adolescente, um adulto…

    Adulto é uma palavra que vem do latim adultus, que designa aquele que completou seu processo de maturação. É aquele que completou a formação de sua personalidade e consciência. Só estaremos completos mesmo quando morrermos, porque a cada dia vamos acrescentando novas frases à nossa história, novas memórias, novas ideias à nossa consciência. Mas o adulto é que aparece ao final do processo em que, da mesma forma que acontece na célula, adquirimos nossas peculiaridades, nossas ferramentas para passarmos às próximas fases.

    Muitas coisas fazem parte da criação da consciência de um adulto: família, profissão, amigos, experiências pessoais, traumas, relacionamentos, dificuldades, superações, conquistas, fracassos, dores, alegrias, filmes, livros, amores. Tudo o que acontece com alguém é armazenado no cérebro de uma maneira primária; fica lá por um curto pedaço de tempo e, se a nossa consciência prévia, construída ao longo das experiências anteriores, disser que deve ficar lá, essa experiência nova fica. Se não, ela é apagada pra sempre, ficando no inconsciente, que é uma espécie de arquivo morto na nossa cabeça. As emoções que ficam guardadas serão os parâmetros utilizados por nós para julgar as experiências que estão por vir. Por isso, a maneira com que reagimos frente às diversas situações a que somos expostos é tão importante: porque ela será arquivada na sua história de vida. E fará parte de você no futuro.

    No futuro do adulto vem a velhice. A velhice é o momento em que suas células estão cansadas de produzir proteínas, estão danificadas devido às tantas agressões a que são expostas ao longo da vida. Já fica difícil produzir boas proteínas, fica complicado para que se dividam da maneira certa. Assim, como o nosso corpo é feito de células, ele começa a transparecer que aquela pessoa já está há tempos aqui. O corpo, assim como uma casa, abriga nossa consciência por determinado tempo. Até o momento em que não consegue mais abrigá-la, o momento da grande separação.

    Começa com uma pequena união e termina com uma grande separação. Dura o tempo de você descobrir o que é a amizade, o que é a alegria, a tristeza, a vitória, a derrota, a felicidade e o amor. A vida é esse curto espaço de tempo definido pelo momento em que você permanece no planeta Terra, desde uma pequena união até uma grande separação, não é tão difícil definir o que ela é. A vida é uma palavra curta.






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